Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
extremo
um ponto no ponto máximo
da máxima quadrandura
da ponte em arcos
uma ponto no ponto máximo
do encontro dos extremos
pontos de mutação
Sábado, 31 de Janeiro de 2009
aqui
A grande força da
unidade indivisivel
montanha, céu e
solidez substancial
Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
estampido
nacaladadanoiteumestampidoeaportahavia
rompidoemfragmentosdemadeiraepóagorahavia
apenasumclarãodetrevaspenetrandopelorombodaporta
Sábado, 6 de Setembro de 2008
SONHEI QUE ERA ZÉ MULAMBO
Era madrugada do dia 05 de setembro de 2008, quando acordei assustado, pois enquanto dormia no umbral do Banco Real, havia sonhado com imagens que pareciam reais. Aqui no Piemonte da Borborema, na Serra da Jurema, via como se fosse uma verdade absoluta, diante dos meus olhos um gigantesco pé de laranja comum, daquelas com muitas sementes e sabor incomum, pois misturava o doce e o azedo para vitaminar a vida.
Era como se eu estivesse sobrevoando o pé de laranjeira, e era tão grande que contrastava com o cruzeiro da “Via Sacra” que leva os romeiros e turistas aos pés de “Frei Damião”. A laranjeira estava carregada com muitos frutos maduros, incontáveis escorriam pelos galhos pesados daquela árvore frondosa e verde que majestava um ar sagrado em seu entorno.
Diante dos meus olhos podia ver aproximando-se do local, uma verdadeira cavalaria de tropeiros com seus cavalos, burros e jumentos, todos com um par de caçuá em seus lombos. Os homens eram uma mistura de jovens e velhos e todos estavam vestidos como se fossem cavaleiros medievais em dia de festa. Os trajes tinham a cor predominante um tecido em tons de ouro, com fitas de seda alaranjadas escorrendo dos seus chapéus de couro cravejados de figuras brilhantes do sol, da lua e das estrelas.
Incontáveis, parecia uma romaria de homens em cavalgada solene, todos desciam a serra, mas vinham dos caminhos e veredas da serra, como se saíssem de sítios misteriosos e formassem uma espécie de cavalaria templária a restituir ou regenerar o mundo em sua volta, pois havia em seus rostos uma plenitude essencial.
Eles paravam os animais, abarrotavam cada caçuá com laranjas e depois desciam a serra da jurema em direção ao centro de Guarabira. Mesmo sendo madrugada, a claridade da manhã e o trotar dos animais despertava os habitantes da cidade, que observavam maravilhados de suas janelas e sacadas, aquela signal marcha cavalaresca.
Quando chegavam à frente da Catedral de Nossa Senhora da Luz, derramavam as laranjas do caçuá e deixavam aquelas esferas maduras rolarem pelo adro da igreja. Esse ambiente era livre de praças e o chão era de terra batida. Na medida em que as laranjas desciam a pequena sinuosidade do terreno, espalhavam-se pelas ruas, ruelas e becos do entorno, formando um verdadeiro rio de frutas maduras.
Do alto das minhas asas percebi que meus molambos sujos e rasgados rodopiavam no ar, meu corpo sujo e feridento era o indicio de que estava apenas sonhando ser o enigmático e desaparecido ZÉ MULAMBO.
Quinta-feira, 10 de Julho de 2008
essencia
Terça-feira, 25 de Março de 2008
BRENDA
A princesa Brenda disse
que sua espada de fogo
foi fundida nas
profundas e multicoloridas
chamas do amor.
Ardente e faiscante
espada de fogo
que lhe faz
filha do amor
em brasas.
Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
obscuros
Obscuros furos nas paredes do tempo.
O caos alavanca sentidos confusos para
os obscuros filamentos da complexa rede
sem sentidos.
Domingo, 27 de Maio de 2007
A Geografia Cultural e o Cordel do Fogo Encantado
Belarmino Mariano Neto
Estamos no Nordeste brasileiro. Nordeste do Brasil não é apenas um referencial geográfico definido pelas coordenadas geográficas em suas latitudes e longitudes, definidas pela rosa dos ventos em seus pontos cardeais, colaterais e subcolaterais. Esse desenho por nós conhecido desde os primórdios do ensino.
O Nordeste brasileiro é uma construção cultural marcada por rotas e novelos de existências humanas indígenas, negras e brancas em um mosaico multefacetário em suas imagens caleidoscópicas.
As palavras não conseguem dizer o que o Nordeste brasileiro representa em seus ruídos, imagens e sons. Os ouvidos enquanto sentidos auditivos projetam imagens mentais de coisas que só sendo nordestino e tendo vivido em determinados lugares, como os sertões, comunidades quilombolas, caboclas ou coisa parecida. Os sertanejos e suas marcas cravejadas de espinhos, pedras e coriscos em carrascais que só a paisagem sertaneja guarda em suas estações de secas, primaveras, verões e invernos. Tons de couro de vacas e cabras em utensílios muitos. Balaios, peneiras, chocalhos e potes de botar água de beber.
Humanos de serras e vales secos. Humanos de espinhos e rostos queimados pelo fogo solar em seus cotidianos de lida pelas catingueiras. As chuvas em temporais e seus rios cheios de vazios de barros e barrancos. Humanos presos pela força das águas e capazes de conviver em pleno vale encantado dos lajedos mágicos. Na voz das resadeiras e seus oratórios da casa ou santos pendurados nas taipas das paredes da sala.
O Cordel do Fogo Encantado é um grupo musical das brenhas do Sertão pernambucano, das bandas de Arco Verde e redondezas. Esse grupo consegue assimilar a essência do ser nordestino, simbolismo, existência e fascinação criadas por sons, cores, sabores e odores ditos por uma língua em farpas do pensar cantado. Uma filosofia viva, vivida em cotidianos extremamente ricos de diversidades e contradições.
O Cordel do Fogo Encantado canta lamentos nordestinos, alegrias e tristezas que se manifestam em festas e sotaques de aboios e canções de lavadeiras. Eles cantam uma geografia cultural profundamente arraigada às tradições da fala nordestina, da fala e da escrita em diálogos feitos com cordas de palavras penduradas pelas línguas em cordéis de dizeres que só o nordestino consegue dizer. A palavra ganha força, a voz nordestina em sua agudeza afro-descendente em rituais de tambores e chamamentos espirituais. As coisas dos índios em ritmos caboclos. A fala seca musicada em ritmos semi-áridos.
O canto popular, as cantigas do lugar coladas em seus diferentes ritmos e significados. Este ensaio é a perspectiva de uma geografia cultural. A Geografia de um lugar é sua cultura manifestada em atores sociais que percebem a riqueza dos sons, dos ritmos e dos padrões de linguagem. Parece até que estamos falando do local, no sentido da lugaridade ou do localismo em fragmentos desligados da globalidade. Nada disso. O Cordel do Fogo encantado trabalha com os sons do universo, os ruídos e métricas matemáticas da música em suas profundezas (Letra de Música):
A Árvore Dos Encantados
Cordel Do Fogo Encantado (Composição: Lirinha)
Acorda levanta resolve
Há uma guerra no nosso caminho
Nos confins do infinito
Nas veredas estreitas do universo
Vejo
As cinzas do tempo
O renascimento
As danças do fogo
Purificação transporte
Escuto
O trovão que escapou
As ladainhas das mulheres secas
Herdeiros do fim do mundo
Isso não é real
Não
Isso não é real
A brotação das coisas
Herdeiros da Tempestade
Girando em torno do sol
Do sol
Girando em torno do sol
Vejo
Aquele cego sorrindo
No nevoeiro da feira
Aquele cego sorrindo
Beijo
A fumaça que sobe
O peito da santa
O cheiro da flor
Árvore dos Encantados
Vim aqui outra vez pra tua sombra
árvore dos Encantados
Tenho medo mais estou aqui
Tenho medo mais estou aqui
Aqui Mãe
Aqui meu Pai
Em cima do medo coragem . Recado da Ororubá
Sentimos as profundezas da letra e sua interpretação pelo grupo simplesmente desafia as leis do firmamento. A Geografia cultural então observa que o autor Lirinha constrói uma paisagem de sons, melodias e imagens caleidoscópicas de um ritual místico, mas ao mesmo tempo tenebroso; cheio de enigmas e escuridões. A história contada pela musica a árvore do encantado nos permite ir até gênese ou o livro de São Cipriano. Aos confins do Brasil e as entranhas da África. O arrasta de espíritos negros em suas correntes de fumaças.
"Entre o cristal e a fumaça" (ATLAN, 1992) é possível ver segredos revelados pelo medo estampado no “peito da santa”. A arvore do encantado é a ciência humana em suas profundezas. A busca da verdade. A grande questão do real: “Isso não é real”. O que é real? Qual a verdade? Como diz Fernandes (2003), a fantástica possibilidade da cegueira humana, da ciência brincando de cobra cega. Mas quando levamos para a essência das coisas, claro que estamos diante de clarividentes, exercitando uma paisagem geográfica.
referências:
ATLAN, Henri. Entre o Cristal e Fumaça. Rio de Janeiro. Jorge Zhar editor,1992.
FERNANDES, Manoel. Aulas de Geografia. Campina Grande: Bagagem, 2003.
Domingo, 18 de Março de 2007
Vidraça
Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br)
Desde muito tempo que todas as noites ela aparecia na vidraça do casarão azul. Sempre às 23 horas e 59 minutos. Seus olhos de coloração azulada, simplesmente ficavam acessos e diante daquele ambiente de pouca luz que escorria pela rua, seu olhar de cristal avermelhado lembrava chamas de velas. Era um ambiente sombrio e pouco movimentado no qual a lâmpada do poste flertava com a copa das castanheiras e da sua vidraça ela espiava a vida passando lá fora.
Noite após noite, ano após ano aquela cena se repetia como em um ritual de incertezas e esperas constantes. O casarão azul era uma construção do fim do século XIX e ganhara esse nome devido aos azulejos portugueses que formavam uma espécie de céu em um mosaico de nuvens com tons suaves.
No primeiro andar do casarão existia uma grande janela arqueada em meia lua e, pintada de branco, ostentava uma vidraça em formatos quadrados, retangulares e triangulares. Ela encostava-se na janela entre aberta olhando para a rua quase deserta. Entre os tons verde, azul, amarelo e roxo dos vidros percebia-se um lustre antigo em forma de pendulo escorrendo cristais de luz permanentemente acesa.
Como no movimento de um caleidoscópio ela aparecia na fresta da janela de vidros multicoloridos que contrastavam com a penumbra da noite. Seu olhar para rua capturava cenas e entre a pouca luminosidade, pedestres apressados, gatos, cães e ciclistas passavam sem perceber aquela presença feminina. Nem ela se percebia, até que no dia dois de novembro do ano dois mil, a zero hora, ela saiu daquela posição e virando-se para a sala, viu o próprio corpo enforcado na linha central do casarão de escombros. Na sua projeção percebeu que estava holograficamente capturada pelas vidraças de um gigantesco e multicolorido Shopping Center e fascinada com aquele novo universo passou a passear livremente pelas vitrines das lojas. Os seguranças da noite perceberam com estranheza que um calor feminino arrepiava-os todas as noites, até que um velho freqüentador do local lhes contou o episódio do casarão e da moça.
Segunda-feira, 5 de Março de 2007
Réptil repetição
Carlos Azevedo (carlosazv@bol.com.br)
A lenta agonia da esfera em tons ouro, azul e rosa atrai uma multidão motorizada de gringos e nativos abastados. Nas palafitas-bares, eles se penduram sentados em cadeiras de plástico, desfrutando da barulheira que se tornou um dos pontos mais bonitos da cidade de Cabedelo. O sol constrangido, no meio de uma nuvem que insiste em atrapalhar a festa, vai caindo bêbado e entediado.
Uma procissão de barcos, canoas e até iates de pequeno porte vagueia pelo braço de rio. Os garçons completam o ar patético da cena retirando as sombrinhas das mesas para que o espetáculo comece. Uma música em play back anuncia a surpresa: Jurandy vai tocar novamente o bolero, ao seu modo, é claro. Tal como um sacerdote de um culto profano, ele anuncia que vem fazer a interpretação de número não sei quanto. Alguns desavisados gringos procuram de onde vem aquele som de sax e sempre um prestativo e submisso nativo, em tom de falso espanto avisa: “olha lá ele na proa daquele barquinho”. Onde? Rapidamente todos sacam suas câmeras digitais como japoneses curiosos, dividindo o foco e o flash entre o instrumentista e a bola colorida que se afoga entre a vegetação e a água. Tal como se fizesse parte da estrutura do barco, vestido de branco e laranja, ele toca o bolero de Ravel. Na palafita vizinha um outro ser realiza a mesma encenação também numa canoa. É verdade sim que eles brigaram pra ver quem teve a idéia de entreter gente que come e bebe contemplando a grande bola. Mas o músico Jurandy foi esperto: patenteou tudo. O outro segue fazendo tudo igual como um esquelético clone de uma cena desgastada. Tudo é sincronizado.
Uma socialite vestida com uma roupa com estampa de pele de tigre ajusta seu óculos de sol Gabana para ver melhor a novidade. Por fim, como um pirata, ele sobe em nosso navio-palafita e estamos todos congelados. O sol já se foi e é chegada a hora do esperado silêncio. No mini-palco, na proa do bar, educadamente ele agradece a atenção de todos pelo momento de grande espiritualidade. A madame talvez esteja sensibilizada mas evita derramar lágrimas sobre a maquiagem, não pega bem. O silêncio dura apenas uns minutos e Jurandy ainda mais sacro vai tocando uma Ave Maria. A missa termina. Ao invés de luz estamos órfãos no escuro. O silêncio nos acalma. Por pouco tempo novamente. Uma banda de forró plastificado no bar ao lado não deixa o clima esfriar numa deprê. A maioria dos gringos vai embora, inclusive um senhor americano com suas duas jovens acompanhantes remuneradas em dólar. A crocodilagem sorri de presas abertas. Os guardadores de carro se rebolam para evitar que todos se evadam sem molhar a caixinha. A vida segue e não se olha para trás. O fluxo motorizado agora invade a rodovia.
Carlos Azevedo é jornalista e professor universitário