Quinta-feira, 1 de Junho de 2006

Olhando Para Trás

OLHANDO PARA TRÁS (Diracy Vieira)

Houve um tempo em que eu não chorava mais. Os problemas vinham, as dificuldades e eu, imbuída de uma birra infantil, tentando fingir uma fortaleza, dizia, "não vou chorar". Eu só precisava seguir em frente. Houve um tempo em que eu desviava o olhar da dor, e alimentava os moinhos de ventos para com eles, brincar de Dom Quixote em busca da alegria. Deixava-me levar pela ventania, e sempre voltava, folha seca de outono, respirando prazer e terra molhada.

Houve um tempo, bem mais anterior a esse, trazido à memória hoje pelo meu amigo de infância Belarmino, em que, proibida de ser criança, eu entrava na adolescência ainda me escondendo atrás das bananeiras para
ver o casal de cágados fazerem amor por trás dos tijolos. E como eles demoravam naquele malabarismo de um sobre o outro...

(Eu transgredia regras que nunca criaria. O desejo, as vontades, carinhos infantis, a vontade de ser feliz pulando o muro para comer goiabas do colégio de freiras. A saudade morde a minha canela de criança descalça, como um cachorro que toma conta do quintal alheio).

Em seguida, a vaca no quintal parindo, era o maior acontecimento. Corríamos para ver o bezerro cair no chão, passando por um buraquinho tão pequeno, envolto em uma bolha tão esquisita de veias e cores azuis. Tudo era novidade, tudo era incrivelmente lindo e maravilhoso. Dona Gessi, a mãe de Belarmino, e nossa vizinha, chegava com um cipó nas mãos retirando as crianças do ambiente do "parto". Mais tarde, finalmente liberados, víamos o bezerrinho já andando, ainda que com dificuldade pelo pasto. Lindo. Nem podíamos chegar perto demais porque a mãe cuidadosa corria atrás da gente.

Houve um tempo, em que ser criança era descobrir como se beija no espelho, bisbilhotar pela brechas das janelas os namorados na calçada, soltar pipa, bola de gude, fingir que soltava pião, para chamar atenção do garoto mais lindo da rua. A minha mãe dizia que sonhar não pagava as contas. E o que o mundo era um leão com a boca aberta, rugindo o tempo todo na esquina de casa. Mas como era bom, esperar mamãe ir trabalhar para brincar de casinha no fundo do quintal, brincar de comidinha, imitando gente grande, e pular a janela, tendo a porta trancada, para tomar banho de chuva com os moleques da rua.

Houve um tempo, quando os pêlos no corpo começaram a ficar inconvenientes, e a vergonha de perguntar à mamãe como me livrar deles, fizeram-me pegar uma lâmina qualquer na casa e cortar toda a axila, ainda novinha em folha, com marcas de sangue por toda a sua extensão. Eu tentava apagar as marcas de um tempo que viria e eu não podia conter com a minha sede de continuar sendo a menina que fingia ser gente grande, mas sonhava em brincar de Barbie, quando mamãe não estivesse vendo.

E nesse tempo, quando o dia  pesa, tenho dificuldade de levantar da cama onde tendo a noite como uma coberta fria e pesada, não consegui pregar os olhos. O silêncio da noite, da caixa dos emails e do msn, colocaram-me como no deserto - e se ele me falta, eu desfaleço. Não foi sono o peso que fechou os meus olhos, foi outra dor. O travesseiro amassado contra a face, dava a falsa ilusão de companhia agradável. A cama fria, a parede que me continha quando o meu caminhar noturno me jogava contra ela, era de uma impessoalidade gritante - o que me impede dos mergulhos, é a água rasa e a superfície plana.

Haverá um tempo, em que não precisarei mais chorar, como um tempo passado, e pensar em peso, será como ver um filme antigo de uma guerra vivida, e abraçar os sobreviventes, com saudades dos que se foram. Ontem, quando implorei ao sono para vir, a caneta e o caderno na ponta da cama não conseguiram chamar minha atenção, e o silêncio das horas, escrevia as minhas angústias no concerto dos grilos noturnos. Eles cantaram a noite toda, entoaram um lamento e um aboio singular. Era uma sinfonia ímpar. Não sei se era lindo, mas era triste. Era para mim, eu sei. Enquanto a noite pesava sobre as pálpebras e sobre as asas, não houve música, não houve carícia, não houve sonho para sonhar. O pesadelo estava no acordar e ver que o mundo ainda é o mesmo da noite passada.

Houve um tempo em que eu ousava acreditar. E sorria. (Dira Vieira)

                                     Para Belarmino e Luis Fragoso, com carinho

publicado por olharesgeograficos às 13:50
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