Terça-feira, 16 de Dezembro de 2014

Morte Espetacular  

Fonte:www.etudogentemorta.com 

 

Por Belarmino Mariano Neto

 

Quando ocupei o útero de gaia ainda não era homem, mas apenas sonho.

Gaia Gerou do sêmen solar a luz da vida que germina em suas entranhas fecundas.

Primeiro um pó de luz se espalhando pelos recantos e imaginários olhos de mulher,

que chora, grita, e sorrindo cria nas profundezas do ser os cristais para o novo e

desprendido movimento do nascer galáctico: o filho de uma nova idade, fluído de

uma aromática essência de mulher que chorando se corta por dentro e sangra um

avermelhado e violento momento matriarcal.

 Fonte: liboriocosta.blogspot.com 

"Eu vi a morte, (...) com manto negro, rubro e amarelo.

Vi o inocente olhar, puro e perverso, e os dentes de coral da desumana.

Eu vi o estrago, o bote, o ardor cruel, os peitos fascinantes e esquisitos.

Na mão direita a cobra cascavel, e na esquerda a coral, rubi maldito.

Na fronte uma coroa e o gavião, nas espáduas as asas

deslumbrantes que ruflando nas pedras do sertão, pairavam sobre urtigas

causticantes, caule de prata, espinhos estrelados e os cachos do meu sangue

iluminado.

 (...) Mas eu enfrentarei o sol divino, o olhar sagrado em que a pantera

arde. Saberei por que a teia do destino não houve quem cortasse ou desatasse.

 Fonte: olhosinquietos.blogspot.com 

 

(...) Ela virá a mulher aflando as asas, com os dentes de cristal feitos de brasas e

há de sagrar-me a vista o gavião.

Mas sei também que só assim verei a coroa da chama e Deus meu rei assentado em seu trono do Sertão." (Ariano Suassuna, Poesia Viva, 1998, CD:14 e 15).

 Estes fragmentos de sonetos, carregados de signos, enigmas e imagens únicas

são os elementos da morte, percebidos por Ariano Suassuna. Neste imaginário, as

figuras da morte, vestida com adereços de elementos da natureza sertaneja, nos

fazem viajar pelas palavras para na morte a sublimação da carne, onde o sol é um

testemunho vivo de tal sede. Assim, símbolos da natureza semi-árida são

ressaltados como poderosos e sagrados, no ponto do divino centralizar sua força

nestas terras. Em outras partes do soneto, Suassuna ressalta a morte como um

toque inapelável do divino, maciez, vida e obscuro toque de um Deus no homem.

 

Fonte: www.sporcle.com 435 × 595

O lugar e seus elementos como o gavião, a cascavel, a coral, a vida e a morte como

figura feminina, que em suas palavras ganham um profundo significado. O destino,

outro elemento muito forte na cultura nordestina, que em sua “triste partida” pode

estar traçado, e diante da morte é preferível vagar pelas terras alheias, na espera

de um dia voltar. Pois o destino traçado em suas mãos vai além de seus poderes

terrenais.

 Morte espetacular, em todos os seus elementos de arte. A morte possui a arte de

matar. A morte mata o tempo e morrer é muito natural. Todo tempo é de morte, é

de morrer. O ato de morrer parece o fim da vida, animal ou vegetal.

 

Pode ser uma entidade imaginária, crânio humano sobre ossos e cinzas.

Morte agônica, súbita, neurocerebral e irreversível. A morte cósmica de uma estrela,

grande e natural morte. Morte matada não natural. Morrida, natural.

 Por doença, violenta, rápida, imprevista. Desastre, homicídio, suicídio.

Chorada, cantada, lastimada, irremediável.

Fonte: amateriadosonho.blogspot.com

 

A morte de um amor ou de um rancor. Cores incolores pouco vivas, pálidas,

mortas, brancas, pretas almas. Um espetáculo. Milhares de pessoas todos os dias e noites.

A cor incolor da morte tecida em luz e trevas, ausenta e apresenta-se sai dos esconderijos e em seu

clandestino silêncio, representa a contemplação nua dos deuses com seus toques

mágicos de mulheres em seda, morim e cetim. Tintas e cores tecidas no

multicolorido matar incolor. Um espetáculo aos vivos. Bandeiras sobre os caixões,

fogo das paixões cremam em lágrimas, enquanto as flores murcham e as moscas

acompanham o cortejo fúnebre.

 

 

Era um anjinho, menos de um ano. Cedo de mais para seus oitenta e cinco anos de

vida lúcida e pública. Apenas um ano e o câncer se espalhou por toda sua vida

acumulada em rugas.

Um espetáculo de cores que para o trânsito e muda o sentido das conversas. Breve,

curto, longo sentir. Apenas um tremor de terra, quase tudo pelos ares. Via satélite,

aos vivos. Um espetáculo de imagens em escombros. Quase tudo fora do lugar. Um

resgate pelo cochilo da morte. É o que é da morte em todos os lugares, um

complemento ao ponto final. Um espetacular cálculo estatístico que preocupa os

órgãos de saúde.

As covas são valas rasas e pequenas para os milhares de mortos infantis por

desnutrição transcontinental. Um espetáculo, assistido em propagandas de

iogurtes, promoções de supermercados ou recordes de produção nas safras de

grãos.

Um espetáculo em imagens para a hora do almoço e do jantar. Uma morte que fica

bonita e ganha vida própria. Colorido, trilha sonora, visitas ilustres e cenas de

choro e lenços. Populares e ilustres tecem curtos trechos de filosofia vã

(vida/morte, ser/existir, desistir). A tristeza se reveste de pompa, os óculos pretos

e modernos contrastam com as faces rubras de peles bem tratadas.

Fonte: wousadia.blogspot.com

 

A morte ganha todas as cenas, gera audiência, redimensiona a memória/imagem

de passados que já estavam mortos. Os filtros das câmaras criam um ar

acinzentado e mórbido. Flores quase mortas avivam os entornos do espetáculo

mortal. Uma princesa, um velocista, um bandido, um índio Galdino, um mega star,

um caminhão de sem terras no click de Sebastião Salgado ou mesmo um simples

popular do corpo de bombeiros, que arriscava a vida para salvar vidas. Todos filhos

da morte.

Tons e sons de morte sobrevoam o local do cortejo. É uma pessoa ilustre, um chefe

de Estado, era integro honesto e bravo. Álbuns de família são focados pela

panorâmica das câmaras. Uma desatinada busca e alucinada espera. Cortante e

bruto alimento do pensar, desconstrução de destruição na construção de uma

miragem. Filhos do estupro ou abortados pelo medo, homens. Violação patriarcal

do divino, violência matriarcal em estar vivo. Morte calada que rebusca nas cinzas a

poeira cósmica da noite, que escondo o sono e que não permite a embriagues dos

sonhos.

Fonte: www.pinterest.com 

 

Um espetáculo mortal, monumental. Milhares foram soterrados pela truculência da

natureza, em um simples tremor de terras. Cenas mundiais repetidas mais de uma

vez pelos diversos canais, via satélite, aos vivos.

A tragédia é africana e européia. Combina morte/ rivalidade, alimento/ fome. Um

espetáculo mortal e louco de vacas inocentemente sacrificadas aos milhares.

Tragédia euroafricana de vacas e homens. Quantas vidas para cada morte. Uma

morte, uma vida.

Fonte: www.mitologia.templodeapolo.net - 

 

Uma cena espetacular que desencadeia todos os pensamentos

que a lucidez consegue roubar da mente em uma loucura. Um viajar imaginário do

ser e penetrar da seda fina do subatômico do momento do sábio nadar e no

demasiado sendeiro do escuro da luz nada encontrar. É grande a noite se resumida

a uma madrugada da morte. Parece uma nevasca eterna. São tantos os espaços da

morte que até o vazio se desespera.

Fonte: www.mundos-fantasticos.com

 

É um espetáculo a certeza da morte. Como garrafas de vinho vazias representa os

devaneios humanos, a morte das uvas e o nascimento dos sonhos que embebidos

pelo doce/amargo, seco/suave traz na sua idade o sabor de uma vida presa,

enfrascadora de energias que em estado líquido, tinto, branco ou rose, pode

derramar-se sobre o corpo, a alma, a calma e a alegria. Por libertar-se, ser vinho,

rio correndo pelo pensar e passar dos que se tornam vinhos em suas fantasias

fermentadas. Te vê do alto com um voar de homem-pássaro, tua contradição

dilacera todos os sentidos de um apocalíptico alfa do gradativo vitral nadesco a se

apagar. Sem luz perdi de ver o brilho dos teus olhos, perdi de ver de vez o que

talvez não veja jamais.

 

Fonte do texto:

Extraído na integra - http://www.cchla.ufpb.br/caos/numero4/04marianoneto.pdf.

 

Fontes das Imagens

https://www.google.com.br/search?q=imagens+da+morte+e+mitos&espv=2&biw=1280&bih=656&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=96qPVJntKs6uogSP-IKICg&ved=0CBwQsAQ

 

publicado por olharesgeograficos às 02:52
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Domingo, 14 de Dezembro de 2014

GEOGRAFIA CULTURAL E DA PERCEPÇÃO: “OS TRABALHOS E OS DIAS DE PROMETEU ACORRENTADO”

   

Fonte: http://www.infoescola.com/mitologia-grega/prometeu/

 

Por Belarmino Mariano Neto 

Acho que existem duas questões em jogo, a primeira é relacionada aos elementos apalavrados e a outra diz respeito ao uso das palavras, pois a palavra é possuidora de muitas forças forjadas nos recônditos de nossa mente, elas expressam pensamentos, expressam sentimentos e, expressam vontades. Este trivium é minha maneira de viver e ver o mundo do qual sou participante.


Todas as palavras são de um potencial sacro fantástico. Elas são imantadas de significados e interesses tão divinos que podem ser encontradas no mitológico mundo de Hesíodo em “os trabalhos e os dias” e esclareço a escolha deste filosofo grego, pois nele encontramos o mito de “Prometeu e Pandora” que começa dizendo: “oculto retêm os deuses o vital para os homens; senão comodamente em um só dia trabalharias para teres por um ano, podendo em ócio ficar; acima da fumaça logo o leme alojarias; trabalhos de bois e incansáveis mulas se perderiam” (HESÍODO, 2006, p.23).


A escolha do fragmento de idéias gregas, tão primitivas e civilizadas encosta nos nossos dias de trabalho e de ócio. Temos muitas alegorias como: a “Caixa de Pandora”, enviada por “Júpiter” para castigar todos os homens mortais de um lugar. Percebam que ainda não estou querendo chegar à idéia instituída como Caos, nem a perspectiva de Nix ou de Eire. Figuras “erradas” e “iradas” que vivem surfando nas ondas olímpicas de nossa tradição filosófica e mitológica. Até porque, gosto por demais do Caos, da Noite e da Discórdia, pois é da deusa da Discórdia que nos alimentamos com os trabalhos e os dias.

 

Fonte: http://www.vanialima.blog.br/2013/04/a-caixa-de-pandora.html


Mas voltemos a Prometeu, pois lhe coube a dádiva de criação do homem, essa mistura de água, terra, ar e ocultos materiais divinos que lhes permitiram direcionar a face aos céus, se imaginando também um pouquinho deuses.
Vejam que estamos pensando em coisas essenciais que poderiam ser aqui representadas como elementos da natureza. Mas parece que na lógica da discórdia e na separação dos materiais, “o olho e o cérebro” (MEYER, 2002), preferem o cérebro matéria, memória expressa em neurônios e percepção visual da terra, do lugar ou do peso do firmamento.

Nesse momento, gostaria de invocar a mulher, pois “Pandora” parece ser o presente de grego, dádiva de Júpiter ao pobre Prometeu. Ela é um castigo de Júpiter e que atingirá de cheio a criação divina em forma de homem.
Nem gostaria muito de colocar o irmão de Prometeu nessa parte da história que lhes conto, mas foi exatamente Epimeteu, quem recebeu Pandora enquanto um presente, do qual Prometeu suspeitava e desconfiava. Pandora trazia em sua caixa, muitos e irados problemas para os homens e estes problemas escaparam antes que Pandora houvesse fechado a sua caixa, restando apenas um cantinho de esperança no fundo das coisas.


Vejam que estamos vivendo mais uma vez à sórdida história das tragédias humanas e colocadas enquanto antecipação de fatos e fantasias tão divinas e tão humanas, com os quais nos tornamos homens mortais. Assim, as coisas estão caminhando em nosso mundinho. O uso in-devido das palavras, fortalecem contradições e expõem as entranhas de tradicionais forças que vivem em subterrâneas camadas do nosso cérebro. Hoje estava me perguntando: Pensamento, memória e o consciente são mesmo de que matéria? Pelo que mesmo estamos lutando em nossos dias? Em que darão estas brigas de Titãs?


É nesse sentido que invoco Hesíodo em “os trabalhos e os dias”, pois pelo que me consta, existem muito melindro e vaidade entre as divindades do olímpico mundinho de nossa existência. Por isso os homens e mulheres que não são deuses, mesmo tendo sido projetados com o mesmo material e designe das divindades, precisam trabalhar, mesmo que muitos prefiram o ócio e confusões divinas.


Por outro lado, “O Prometeu acorrentado” acha que Pandora trás em sua caixa todos os tipos de males, uma narrativa em que o ódio, a inveja e tudo mais, recairão sobre o homem e seu lugar.  Vejo que as nossas relações estão tão presas ao mito de Prometeu e Pandora que o mundo dos homens, a história, a tradição, parecem vinganças de Zeus contra um lugar humano, amaldiçoado para sempre.


Gosto da idéia de ser uma mortal e de ver meus dias consumidos pela vida, pela imprevisibilidade, assim me sinto tão divino quanto às crianças que brincam despreocupas do amanhã, mas sei das minhas correntes e assumo a condição “prométeica” de ter que trabalhar os dias, de planejar meus sonhos e de fazer acontecer. Nesse sentido, todos os argumentos e sentimentos de pertencimento ao lugar possuem a mais fiel validade, todos os medos e atropelos na maneira de conduções das idéias são naturalmente aceitáveis por todos, mas a engrandecida e catastrófica idéia de que tudo vai acabar não ajudam na configuração das melhores argumentações para o presente.


Claro que o cérebro, processa necessidade imediata, reação instintiva e o frio na espinha quando se é surpreendido pelo latido do cão nas pernas. Mas passado o susto, recomposto o estado da racionalidade pura, será possível dialogar com as três maiores e invisíveis forças da natureza: Cronos (o tempo), Cosmo (o espaço) Caos (aqui traduzido com a incerteza). Falo do tempo, pois ele é o grande Senhor que a todos consome. No nosso caso, o tempo urge e precisamos ter clareza disso em nossas ações, pois depois que a areia escorre pelo fino gargalo da ampulheta, pouco se tem a fazer.

 

 

Fonte: https://fenixdefogo.wordpress.com/tag/cronos-tita/


Acredito que nessa relação espaço-tempo, a “Intercomunicação dos Sentidos”, Sobre a incerteza, acredito demais nela, é o corpo teórico com o qual gosto de trabalhar. Defendo inclusive que a vida é imprevisível, que “só há um ponto fixo”, como afirma Kafka e que é daí que precisamos partir. Não acredito que o cérebro funcione apenas para transmitir e dividir o movimento das ondas neurais. Algo mais que motricidade e mecânica físico-química acontecem nesse órgão de seleção e ação. Meio que discordando de Bérgson citado por Meyer (2002), somos possuidores de memória pura antecedente e o que chamo de essência espiritual dos titãs. Assim justifico tão enfronhado texto de mitos, homens, mulheres e divindades. 

Por isso, somos homens e mulheres mortais e sem culpas, nesse caso, conscientes dos papeis por nós assumidos entre “os trabalhos e os dias”, temos um poder reconhecido enquanto “lembrança pura”, transformada em “lembrança-imagem” (MAYER, 2002, p.24), e o conhecimento que podemos utilizar servirão para como Hercules, libertamos prometeu das correntes, pois sua luta foi conquistar o fogo para os humanos e por tal façanha foi acorrentado.
O lugar como um detalhe abre espaço-tempo para o uso da inteligência coletiva (LÉVY, 2000) e para a constituição de laços sociais e relações com o saber dos quais temos profundo censo de justiça, ética e mais uma vez inteligência coletiva. 


REFERÊNCIAS


HESÍODO. Os trabalhos e os dias. (Traduz. LAFER, M. C. N.). São Paulo: Iluminuras, 2006.
LÉVY, Pierre. A Inteligência coletiva – por uma antropologia o ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
MEYER, Philippe. O olho e o cérebro – biofilosofia da percepção visual. São Paulo: Ed. Unesp, 2002.

publicado por olharesgeograficos às 01:09
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