Domingo, 28 de Janeiro de 2007

AS POTENTES MALAS DE SOM

Belarmino Mariano Neto (belogeo@yahoo.com.br )
 
Era mais ou menos 2h30 minutos de uma madrugada de janeiro. Na estação verão do Nordeste paraibano os alísios do sudeste sopravam uma umidade atlântica enquanto uma fila desdentada de carros aguardava seus donos em uma rua residencial do bairro de Mangabeira. Os veículos estavam todos molhados do sereno que se misturava com a poeira urbana. Um suar frio emitido pela atmosfera úmida tocava os metais, borrachas e vidros dos carros que pareciam transpirar.
Na rua transversal que dava para a praça do coqueiral, um monte de gente se acotovelava em torno de uns quatro ou cincos carros com suas malas abertas e delas ecoava uma pesada bagagem de som. Carros importados e equipamentos de ultima geração disputavam um território de ruídos que mais parecia uma guerra musical de estilos confusos. Os embalos daquela madrugada era uma mistura de sons tecnos, funk, forró e rap de duplo sentido.
Os grupos humanos formavam rodas de dança e de bebidas. A umidade signal dos corpos femininos seminus se misturava com o suor dos homens e as garrafas, latinhas de cerveja e copos de outras bebidas com gelo molhavam o capô dos carros, liberando uma fina camada líquida que escorria dos corpos em vibração.
Os vendedores de churrasquinho espalhavam uma fumaça com cheiro de carne assada que se misturava ao ambiente dando uma idéia de gelo seco rodopiante. Para queimar aqueles pequenos pedaços suculentos de animais mortos, os vendedores de tira-gostos umedeciam a carne na manteiga e em contato com o carvão em brasas, despertava o desejo carnívoro dos brincantes que consumiam a madrugada com aquele sonoro caos musical. Aquele cheiro de assado se misturava aos sons frenéticos como se prenunciasse um carnaval com corpos suados, latas amassadas e cascos quebrados que eram empurrados para um canto da via pública.
Aqui do meu canto observei que aqueles carros musicais vibrantes não suavam com o sereno da madrugada. Enquanto eu contava um apurado de trinta e sete reais, crianças choravam e cães latiam na vizinhança daquela madrugada de barulho incomodo. Naquele momento se aproximava um casal e enquanto utilizava minha flanela umedecida de sereno para enxugar o pára-brisa do seu carro, o moço me deu uma nota de cinco reais e pediu para que me afastasse, enquanto entrava no carro com sua moça suada e aos beijos.
Dentro do veículo com vidros fume os dois se acariciavam e molhavam as bancadas com suor e saliva. De longe eu via apenas um movimento de mãos e braços levantando blusa, enquanto uma boca úmida lambia seios pontudos. Em pouco tempo deram partida no carro e deixaram mais um espaço vazio.
publicado por olharesgeograficos às 15:51
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