Segunda-feira, 4 de Setembro de 2006

leituras de kafka a beira mar

Por Joana Belarmino


Ainda estou cheia das emoções de haver acabado agorinha mesmo Kafka à beira mar, romance escrito por

Haruki Murakami. Na minha opinião, trata-se do melhor romance desse escritor que sabe tocar na solidão humana com dedos de mestre, sabe dissecar a angústia interior e exibí-la aos bocados em sua narrativa híbrida, mistura de dramas agônicos com as simplicidades do cotidiano, receita que parece marcar todos os grandes e bons romances. O romance de

Haruki Murakami é bgrande e bom. Grande nas suas quase 550 páginas, bom no modo de concentrar num destino comum, personagens aparentemente tão diferentes e desiguais em idades, modos de ser e de pensar, afivelados por uma espécie de necessidade de exercitarem os passos do encontro, da passagem, da entrada para a vida entramada de todos, por caminhos os mais improváveis.

Encontro que para alguns será a morte, para outros será a sensibilidade e a´poética de se estar vivo, para outros ainda, o engendrar de mundos paralelos, em que a passagem do tempo é a fina e imprecisa linha entre a vida e o que, por não descortinar um nome adequado, ainda vou chamar de vida.

Haruki Murakami instaura seu romance no centro da angústia de um menino de quinze anos que deixa a casa do pai, levando consigo o pesado luto de também ter sido abandonado pela mãe. E do centro da angústia desse menino, o escritor vai alargando, como se fossem braços espiralados, a história impressionante de Nakata,

o encontro com a biblioteca e Oshima, a história de amor da senhora

Saeki tudo tingido por mar e por música, por caminho e repouso, despertar. Sim, despertar, porque é de despertar a história de Oshino, motorista de caminhao, a seguir por gosto e deslumbramento os passos imprecisos de Nakata, até a pedra de entrada.

Lugar “...onde afasto-me de mim mesmo e passo a ser uma borboleta a esvoaçar ao longo das fronteiras da criação. Para lá do limiar do mundo, existe um espaço onde forma e conteúdo quase se encontram. Onde passado e futuro formam um arco um interminável arco contínuo”. Um lugar paralelo, diria eu, onde a dor ainda é uma das âncoras a tecer os liames entre o mundo e o eu. Murakami, o nome de algo, de um homem, um roçagar infinito das coisas que desatinam, desafiam, desintegram, desatam a imaginação da gente! Haruki, um homem, um nome, a pedra de entrada para a trama infinita das coisas a tecerem-se no tempo, no templo, na teia das palavras traçadas, como a areia que despego da terra e solto de novo ao vento, para vê-la desfeita em sílabas outras do mesmo romance de estarmos vivos.


Joana Belarmino
pandora00@uol.com.br
joana@saci.org.br
ssemorinha@gmail.com.
messenger: zazoeira@msn.com
skype: zazoeirinhaplus
http://intervox.nce.ufrj.br/~joana

publicado por olharesgeograficos às 02:49
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. MORTES VINDAS DA ÁFRICA

. Geografia e banalidade do...

. Morte Espetacular  

. GEOGRAFIA CULTURAL E DA P...

. Espelhos refletidos de um...

. Resenha sobre Perdido de ...

. extremo

. aqui

. estampido

. SONHEI QUE ERA ZÉ MULAMBO

.arquivos

. Setembro 2015

. Março 2015

. Dezembro 2014

. Outubro 2012

. Julho 2012

. Dezembro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Maio 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds